Circuito Interno

 

Circuito Interno: A banalização dos relacionamentos sexuais nas novelas – Ilustração: Arionauro/Carta Z Notícias – Data: 06/09/2005 – A menção dos créditos é obrigatória
Depois daqueles beijos
por André Bernardo
TV Press


        Já não se fazem mais romances como antigamente. Prova disso é que algumas novelas contemporâneas, como “América” e “A Lua Me Disse”, da Globo, andam mais “moderninhas” que nunca. Exemplo: Cena 1 – rapaz começa a namorar a menina; Cena 2 – casal se dirige à cama. Ninguém parece querer mais perder tempo com namoros, flertes ou afins. A banalização dos relacionamentos sexuais só não chegou ainda às produções de época, tradicionalmente mais recatadas e românticas que as atuais. Em “América”, a personagem Sol, de Deborah Secco, é do tipo que suspira por um, mas casa com um segundo e vai para a cama com um terceiro. “Ter de escolher entre um amor e a realização pessoal é um conflito que todos os folhetins já exploraram. A diferença de 'América' é que esse conflito é vivido por uma mulher e não pelo mocinho da história, como tradicionalmente acontece”, observa Glória Perez.
        Segundo Carlos Lombardi, autor de “Uga Uga” e “Kubanacan”, entre outras, não dá para generalizar. A exemplo do que acontece na vida, as novelas também estão repletas tanto de relacionamentos fugazes e inconseqüentes quanto de romances duradouros e responsáveis. “Se fazemos uma novela só com relacionamentos superficiais, ela fica desinteressante. Mas se fazemos também todas as histórias de amor de maneira grandiosa e conseqüente, fica falsa”, defende Lombardi. Para Lauro César Muniz, todo autor precisa estar atento ao que acontece ao seu redor, para não correr o risco de se tornar ultrapassado. “Há 50 anos, o termo 'ficar' soaria como galinhagem ou promiscuidade. Hoje, não. Antes de assumir um compromisso mais sério, a garotada se testa para ver se dá certo ou não. Os tempos mudaram e os costumes também”, pondera ele.
        Em alguns casos, o romantismo em tramas atuais é reservado apenas a casais homossexuais. Foi assim em “Mulheres Apaixonadas”, de Manoel Carlos, quando o romance entre Clara e Rafaela, de Alinne Moraes e Paula Picarelli, culminou num discreto “selinho” durante uma montagem de “Romeu e Julieta”. Mais recentemente, a primeira noite de amor de Jennifer e Eleonora, de Bárbara Borges e Mylla Christie em “Senhora do Destino”, só aconteceu depois de um longo e delicado namoro. “Os relacionamentos afetivos só são banalizados quando a novela não tem uma boa história para contar. Aí, sim, ela precisa se basear em acontecimentos efêmeros, como troca-troca de casais, para ganhar espaço na mídia”, alfineta Aguinaldo Silva.
        Os autores Walcyr Carrasco e Benedito Ruy Barbosa parecem concordar com Aguinaldo. Tanto que se abstiveram de registrar suas opiniões. Segundo Benedito, autor de novelas como “Terra Nostra” e “Esperança”, para não criticar alguns colegas... “Novela das seis, por exemplo, tem a obrigação de resgatar valores esquecidos. O amor anda muito vulgarizado. Hoje em dia, quando o cara diz que ama, pensa logo em sexo”, queixou-se Benedito, por ocasião do “remake” de “Cabocla”. Já Marcos Lazarini, responsável pela adaptação de “Os Ricos Também Choram”, do SBT, prefere adotar um tom mais moderado. “É da natureza do folhetim essa busca incessante pelo par perfeito. Além disso, como o tempo ficcional é diferente do real, temos a sensação de que o troca-troca é constante”, apazigua.
        Na Record, o autor de “Essas Mulheres”, Marcílio Moraes, recebeu carta branca do presidente Alexandre Raposo para “carregar nas tintas” em cenas de nudez e sensualidade. Como aquela do banho de tina da cortesã Lúcia, interpretada por Carla Regina, que resultou em pico de 17 pontos. Segundo Marcílio, “Essas Mulheres” pode até ser uma produção de época, mas a abordagem é moderna. Mesmo assim, ressalva ele, é preciso tomar cuidado para não se cometer excessos. “Essa história de beijar e já levar para a cama enfraquece a história. O bom de tratar um relacionamento é justamente a dificuldade que os amantes encontram para terminarem juntos”, observa.

Zona de perigo
        Os autores nunca sabem se determinado tabu está superado ou não até o dia em que resolvem enfrentá-lo em suas novelas. Alguns deles, como Manoel Carlos e Aguinaldo Silva, podem até se dar por satisfeitos por terem escapado ilesos de temas delicados, como homossexualismo. “Acho que a polêmica em torno de romances homossexuais em novelas é sempre meio fabricada. Diz-se, logo de saída, que tais personagens são homossexuais e se escreve o diabo sobre elas. Mas, se a preferência sexual delas não fosse divulgada, ninguém saberia”, argumenta Aguinaldo. O autor Silvio de Abreu não teve a mesma sorte em “A Próxima Vítima” e “Torre de Babel”. Nas duas ocasiões, os personagens homossexuais sofreram rejeição do público. Em “Torre de Babel”, inclusive, Leila e Rafaela, interpretadas por Silvia Pfeifer e Christiane Torloni, morreram na explosão de um shopping.
        Para Marcílio Moraes, um tema que continua sendo tabu é o da prostituição. Em “Essas Mulheres”, ele aborda a questão através da cortesã Lúcia, vivida por Carla Regina. “Por maior que seja a cobrança por parte do público, acredito que todo e qualquer tema possa e deva ser abordado em novelas, desde que com inteligência e sem ferir suscetibilidades ou reforçar preconceitos”, destaca Marcílio. Mas nem sempre isso é possível. É o que pensa Carlos Lombardi. Para ele, temas espinhosos como incesto, por exemplo, dificilmente ganharão espaço na teledramaturgia. “Para se ter uma idéia, você não encontra nem grupo de discussão na Internet que defenda relações incestuosas. E olha que, na Internet, há doido para tudo...”, brinca Lombardi.

Instantâneas
# Em “Celebridade”, Gilberto Braga tentou “apimentar” a relação entre Marcos e Laura, personagens de Márcio Garcia e Cláudia Abreu, através de práticas sadomasoquistas. Na ocasião, a novela chegou a figurar no “ranking da baixaria”, promovido pelo Ministério Público.
# Gilberto Braga apostou – e perdeu – quando abordou o tema da fidelidade. Em “O Dono do Mundo”, Felipe Barreto, personagem de Antônio Fagundes, ficou obcecado em tirar a virgindade de Márcia, interpretada por Malu Mader, antes do marido. Com índices insatisfatórios, “O Dono do Mundo” chegou a perder no Ibope para “Carrossel”, do SBT.
# Manoel Carlos também abordou o tema da virgindade em “Mulheres Apaixonadas”. Na trama, Carolina Dieckmann interpretava a recatada Edwiges, que sonhava em casar virgem e de véu e grinalda. O “voluntário” era Cláudio, de Erik Marmo.
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