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Principal: entrevista com a atriz
Mariana Ximenes – Fotos: Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z Notícias – Data:
06/09/2005 – A menção dos créditos é obrigatória
Anjo
rebelde
Ela é uma “patricinha” que compra suas “lingeries” em
Miami. Não, ela é uma jovem que namora homens mais velhos. Não, ela é uma
“tchutchuca” típica dos bailes funks cariocas. A Raíssa de “América” é tudo
isso. Uma jovem instigante, com profundos problemas familiares e uma
personalidade multifacetada, do jeito que Mariana Ximenes gosta. A
intérprete de Raíssa mais uma vez se depara com um papel complexo e que
exige um exaustivo trabalho de interpretação. Com um currículo que inclui
tipos pouco ortodoxos como a “apimentada” Bionda, de “Uga-Uga”, e a “noviça
rebelde” Celi, de “Andando nas Nuvens”, desta vez ela vive as crises
existenciais de uma adolescente filha de uma família de classe alta
emocionalmente desestruturada – completada pelos personagens Glauco, de
Édson Celulari, e Haydée, de Christiane Torloni. Tamanha densidade pegou a
atriz meio de surpresa. “Na verdade, eu não sabia que iriam acontecer todos
esses conflitos. E a Glória tem desenvolvido com muita maestria essa relação
entre pai, mãe e filha”, avalia.
Aos
24 anos de idade e com nove anos de carreira profissional, Mariana se
considera pronta para aceitar qualquer tipo de papel, sem preferências. Da
mesma forma, se diz igualmente encantada pelo teatro, pelo cinema e pela
televisão. E, ao ser questionada sobre qual seria o seu grande desejo
profissional, ela não hesita em apontar que sua maior vontade é poder
comemorar, ainda em atividade, 60 anos de carreira ou mais. “Tudo o que eu
mais quero na vida é continuar trabalhando e chegar aos 70, 80, 90 anos no
palco, como o Paulo Autran ou o Sérgio Britto”, sonha. E a receita para
chegar lá a jovem atriz parece ter em mente desde os seis anos de idade,
quando começou a ensaiar os primeiros passos da carreira, ainda nas aulas de
teatro. “Tem que ter vocação para resistir e para fazer as escolhas certas.
E manter os seus valores, o que você acredita e trilhar sua meta de acordo
com isso”, ensina.
por Alexandre Coelho
TV Press
P – A Raíssa tem se mostrado uma personagem com conflitos bem complexos.
Como é viver esses conflitos?
R – É muito interessante abordar essas questões, até para mostrar como não
devem ser as relações, que as relações devem ter um maior aprofundamento,
que as pessoas devem tomar mais cuidados, cuidar mais. A filha precisa de
atenção, não apenas de bens materiais, já que a Raíssa é de uma família
rica. Não apenas os bens materiais são necessários. Há uma necessidade de
atenção. Logo no primeiro capítulo, a Raíssa toma um tiro de raspão – em uma
coisa, infelizmente, muito comum no Rio de Janeiro, que são os tiroteios – e
a solução que a família apresenta é sair do país. E aí há um questionamento:
será que sair do país realmente é a solução? Eu não acredito nisso. Acredito
que a gente tem que ficar no nosso país, ter esse instinto patriota e tentar
melhorar cada vez mais a situação do país. Não é fugindo da violência que
você vai solucionar a vida do país.
P – Como você encarou o triângulo amoroso da Raíssa com a mãe?
R – A Raíssa, sem saber, se apaixonou pelo homem da vida da mãe que, por sua
vez, foi muito inábil na condução da história. Porque num primeiro momento
foi uma fatalidade mas, depois, quando a mãe descobriu, ela tinha que ter
conversado com a filha, tido um diálogo. Mas ela se omitiu e foi levando
essa história até não conseguir mais sustentar. E é quando acontece uma
outra fatalidade, quando a Raíssa descobre tudo de uma forma estapafúrdia,
fica descontrolada e é atropelada. A partir disso toda a educação que a
Raíssa recebeu começou a ruir. Ela ficou sem referências, sem parâmetros,
sem limites. Aí também vale uma discussão interessante para a família, para
os pais. Eles têm que entender que também estão formando o cidadão para o
mundo, cidadão que tem que ter limites, tem que ter parâmetros, tem que ter
referências e valores, acima de tudo. É bacana chamar a atenção para isso
também.
P – Em seguida, veio a descoberta de que o pai namora uma amiga...
R – É, depois ainda veio isso. Ela estava em uma fase de contestar todos
esses valores deturpados da família dela: a valorização de bens materiais, a
falta de atenção e de cuidados com ela... E aí, acontece isso. Na verdade, a
Raíssa está passando por uma traição da amiga. Então, ela tem esse conflito.
E com relação ao pai, o que ela sente é ciúme da figura paterna.
P – Outra polêmica envolvendo a personagem é o fato de ela ser uma menina de
classe alta e freqüentar bailes funks. O que acha de a Glória Perez abordar
o tema?
R – Eu acho muito interessante. Porque o funk é uma manifestação popular
espontânea. E é tudo o que a Raíssa estava querendo agora: a verdade. Ela
está manifestando suas vontades, está procurando sua verdade interior. O que
acontece é que o funk é verdade, é aquilo, as pessoas cantam o que se passa
nas comunidades, sem maquiagem, sem rodeio, está ali, a verdade nua e crua.
Esse foi o canal de identificação que a Raíssa teve com o funk. É um lugar
onde ela não é julgada, ela se diverte, ela “solta a franga”. E é bom
dançar. Não que cure, mas alivia.
P – Como você se preparou para viver tantos conflitos?
R
– Eu fiz um trabalho com uma terapeuta. Justamente porque a Raíssa é uma
adolescente e tem várias variações de humor, tem vários conflitos com mãe,
pai, namorado, amiga, essas relações todas. Eu tive uma adolescência um
pouco diferente, uma adolescência mais calma, com apoio dos pais e
trabalhando. Sempre tive um pouco mais de responsabilidades desde cedo. E
não sou de família de classe tão alta como a Raíssa. Então, eu conversei com
uma terapeuta para ter uma análise mais técnica e poder falar disso com
certa propriedade. Mas foi só para ela me acompanhar e eu saber como uma
adolescente reagiria a essas influências externas. Eu também fui pesquisar
sobre funk, entender um pouquinho. Pesquisei sobre as raízes do funk. E
descobri essas figuras maravilhosas, como o DJ Marlboro, que tenta integrar
a classe média-alta com as pessoas da comunidade. É muito interessante essa
integração, essa união, para as pessoas saberem o que acontece e serem parte
de uma mistura. O MV Bill também é uma figura super interessante, atuante,
engajada, que efetivamente faz um trabalho na comunidade. E na verdade, essa
integração é feita através da música, através da arte.
P
– Qual o ponto em comum que você vê entre as personagens que interpretou na
tevê? Talvez uma certa ingenuidade...
R – Não, eu não concordo. Em “Uga-Uga”, a Bionda não era nada ingênua. Pelo
contrário, ela era totalmente espevitada. A Ana Francisca, de “Chocolate com
Pimenta”, sim, era bem mocinha de novela. Mas era uma mocinha atípica,
porque se tornou viúva e batalhou com todo mundo. Ela também tinha sua
fortaleza, sua força interior. Na verdade, ela começou como um patinho feio
e teve uma transformação no meio da novela, o que foi muito interessante.
Com a Raíssa eu também tive a oportunidade de mudar no meio da novela. São
praticamente dois personagens, mas com o mesmo fio condutor. Mas fazer a
mudança é muito gostoso para o ator. Em “A Casa das Sete Mulheres” eu fiz a
Rosário, que era ingênua mas tinha um pé na loucura, não era tão doce assim.
A freirinha que eu fiz em “Andando nas Nuvens” era uma noviça que, de
repente, se transformou. Em “A Padroeira”, sim, eu fiz uma mocinha típica,
de época.
P
– Você tem vontade de fazer algum tipo específico de personagem?
R – Ah, muitos. Eu gosto de personagens diferentes. Nenhum especificamente,
são tantos. Quando eu vejo um filme e o personagem tem uma garra, uma gana,
sofre alguma modificação... É tão prazeroso ficar imaginando “nossa, que
personagem bacana de fazer!”. Eu gosto do processo de criação, me interesso
por isso. Como, por exemplo, a Hillary Swank, que fez “Meninos Não Choram”,
onde ela era um garoto, e depois fez “Menina de Ouro”, onde você vê que a
mulher treinou muito. Então, esse tipo de processo, de treinamento, de
desafio é bacana. Eu gosto do processo de criação mesmo, é isso que me
desafia, que me instiga.
P – A Raíssa sofre com uma certa falta de compreensão dos pais. E a sua
família, sempre apoiou sua decisão de ser atriz?
R – No começo foi meio difícil. Eu vim morar sozinha com 17 anos no Rio e
acabei não fazendo faculdade por conta disso, por conta dessa opção. Eu já
tinha passado para a faculdade de Cinema. E aí eu pedi o apoio deles, porque
senão eu seria uma jovem para sempre frustrada em casa. Eles optaram por me
deixar vir e por me dar toda a orientação possível. E eu acho que é a melhor
solução, mas cada pai tem a sua consciência, o seu método. Mas aí a gente
volta para toda aquela discussão de família que Glória Perez aborda, de
exercitar o diálogo, a compreensão sempre.
Destino
traçado
Mariana Ximenes é do tipo que nunca teve dúvidas com
relação a querer ser atriz. Já com seis anos de idade ela começou a estudar
teatro em São Paulo, sua cidade natal. Participava das turmas de teatro no
colégio e chegou a integrar alguns grupos alternativos isolados. Mais tarde,
Mariana estudou no conceituado Teatro-Escola Célia Helena, antes de partir
para um intercâmbio na Inglaterra. Ao voltar para o Brasil, então com 15
anos, surgiu a oportunidade de fazer sua primeira novela, “Fascinação”, de
Walcyr Carrasco, no SBT. “Eu comecei muito novinha, né? Mas foi ótimo, está
sendo ótimo”, diverte-se.
O
talento da jovem atriz foi prontamente reconhecido e logo surgiu o convite
para se transferir para a Globo. Em 1999, Mariana interpretou a freirinha
Celi Montana em “Andando nas Nuvens”, onde contracenou com “feras” como
Marco Nanini e Débora Bloch. A partir daí, a voz suave e o jeitinho
cativante levaram a atriz a receber diversos convites para viver mocinhas.
As mais marcantes foram a elétrica Bionda, de “Uga Uga”, em 2000; a
delirante Rosário, da minissérie “A Casa das Sete Mulheres”, em 2003; e a
viuvinha batalhadora Ana Francisa, de “Chocolate com Pimenta”, também em
2003. “Apesar de ser uma mocinha, ela era diferente. Foi uma personagem
baseada na 'Viúva Alegre', de Franz Lehar”, destaca. Com 24 anos de idade e
há nove atuando profissionalmente, Mariana Ximenes interpreta Raíssa em
“América” com a bagagem de quem já está em sua sétima novela. Além disso, a
atriz acumula a experiência de filmes como “O Invasor”, de Beto Brant, e “O
Homem do Ano”, de José Henrique Fonseca, entre outros.
Trajetória televisiva
“Fascinação” (1998) – Emília.
“Andando nas Nuvens” (1999) – Celi Montana.
“Força de um Desejo” (1999) – Ângela.
“Uga Uga” (2000) – Bionda.
“A Padroeira” (2001) – Isabel de Avelar.
“A Casa das Sete Mulheres” (2003) – Rosário.
“Chocolate com Pimenta” (2003) – Ana Francisca.
“América” (2005) – Raíssa.
Amores bandidos
Por diversas vezes, Raíssa, personagem de Mariana Ximenes
em “América”, ensaiou um flerte com um lado algo marginal da vida, fruto da
instabilidade emocional de sua família. Inicialmente com o romance com Tony,
papel de Floriano Peixoto, um homem bem mais velho. Depois, com a
identificação com o funk, que leva a menina rica a freqüentar bailes em
comunidades carentes. De tanto ensaiar, a personagem acabou, de fato,
conhecendo um bandido. “Na busca por essa sua verdade, a Raíssa acabou se
envolvendo com o Alex, personagem de Thiago Lacerda, que é o grande vilão da
trama”, avalia a atriz.
Não é a primeira vez, entretanto, que a atriz vive essa
proximidade com “o lado negro da força”. No filme “O Invasor”, de 2001,
dirigido por Beto Brant, Mariana interpreta a jovem Marina, personagem que
se sente atraída por um chantagista mau-caráter, no caso, o tal “invasor” da
história, que deseja subir na vida a qualquer custo. “Também no filme, a
personagem se envolve com o grande bandido da trama, que é o Anísio,
interpretado por Paulo Miklos”, observa.
Em “A Casa das Sete Mulheres”, minissérie dirigida por
Jayme Monjardim e exibida em 2003, mais uma vez uma personagem de Mariana
Ximenes viveu um amor proibido. O objeto de desejo, se não era um bandido no
sentido primário do termo, era um inimigo. Na história, que tem a Guerra dos
Farrapos como pano de fundo, Rosário, papel da atriz, se apaixona por
Estevão, interpretado por Thiago Fragoso. O problema é que ele é um soldado
das tropas imperiais, inimigas do exército rebelde comandado pelo tio da
menina, Bento Gonçalves. Pior: ele é um soldado morto, que insiste em
aparecer para ela. “Foi uma situação que levou a personagem à beira da
loucura”, recorda. |