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Circuito Interno
Circuito
Interno: Morte incerta nas novelas - Ilustração:
Afonso Carlos/Carta Z Notícias - Data: 28/09/2010 - A
menção dos créditos é obrigatória
Mistério sobre
morte de personagens movimenta tramas e atrai interesse do
público nas novelas
por Arcângela Mota - TV Press

Conflitos amorosos, dramas e traições são a tônica de
qualquer novela. E também os principais responsáveis em
prender a atenção do telespectador ao longo dos cerca de
oito meses em que uma produção fica no ar. Mas não é raro
que, em alguns casos, a expectativa acerca da morte de um
personagem se torne tão interessante quanto os dilemas em
vida, ou até mais. É o que tem acontecido em novelas como “Passione”,
da Globo, e “Ribeirão do Tempo”, da Record, onde o
mistério envolvendo o assassinato de personagens vem
roubando a cena e tornando as histórias mais intrigantes.
Eliminar um personagem, no entanto, é uma decisão tomada com
cuidado pelos autores. Especialmente quando se trata de uma
trama policial. “Uma história desse tipo tem de ser
escrita de trás para frente. Tudo precisa estar armado para
fazer sentido. Escrevo novela com o final na minha cabeça”,
explica Silvio de Abreu, autor de “Passione”.
Nas
últimas semanas, o suposto assassinato de Diana, personagem
de Carolina Dieckmann na novela das oito da Globo, tem
gerado uma série de especulações. A maioria delas baseada na
teoria de que a possível morte da mocinha aconteça em função
de sua baixa popularidade com o público. Mas muitos autores
acreditam que, quando se trata de morte, a opinião dos
telespectadores não pode ser soberana. E há quem defenda que
esse não é o melhor destino para um personagem sem carisma.
“Quando um deles não agrada ou perde a função na trama,
o mais adequado é fazer com que viaje e não volte. O crime
precisa acrescentar algo à história, senão vira um recurso
banalizado”, opina Ricardo Linhares, co-autor de “Paraíso
Tropical” - que fez sucesso com o mistério acerca do
assassinato da vilã Taís, de Alessandra Negrini - e também
da próxima novela das oito da Globo, “Insensato Coração”,
ambas com Gilberto Braga.
Não
trabalhar com “pedidos do público” também é
uma opção do autor Marcílio Moraes. Ao criar os crimes que
acontecem na fictícia cidade de Ribeirão do Tempo, ele
garante não ter como referencial os desejos dos
telespectadores. Mas pondera que, já que as novelas são
obras abertas, nem sempre vale a pena seguir à risca o que
está planejado. “É possível que uma morte prevista
seja cancelada ou adiada. Sempre sigo minha intuição. Se
percebo que o destino de um personagem pode ser mais
interessante, modifico”, avisa o autor, que lamenta
o fato de as informações sobre a morte de um personagem
chegarem ao público antes dos capítulos irem ao ar. "Não
gosto muito que as pessoas saibam isso de antemão. E também
não encaro como um recurso dramático. É uma contingência do
modo como uma telenovela é escrita", teoriza.
Mas
as especulações acerca das mortes dos personagens costumam
funcionar como um bom recurso para alavancar a audiência.
Ainda mais quando os autores apostam no clássico "quem
matou?", recurso tão antigo quanto eficiente na
dramaturgia. E foi a isso que Lauro César Muniz recorreu em
"Poder Paralelo", da Record. Com o intuito de
aumentar a curiosidade do público sobre a trama, ele decidiu,
na reta final, criar um assassino misterioso que matava um
personagem quase toda semana. "Senti que precisava de
um elemento de forte interesse e essa ação era cabível no
tema e clima da novela. Uma história policial vive dessas
armações", conta.
E foi em uma espécie de armação envolvendo a morte de
mais de 100 personagens que nasceu um dos casos mais
emblemáticos da dramaturgia brasileira. Em 1967, na novela "Anastácia,
a Mulher Sem Destino", exibida pela Globo, mais da
metade do elenco foi morto em um terremoto, criado com o
objetivo de acabar com o excesso de personagens e reformular
a trama, que sofria com sérios problemas de audiência. "Provocamos
um terremoto na tevê brasileira. Se não fosse a morte de
toda essa gente, a novela sequer teria chegado ao fim, de
tão perdida que estava", lembra Emiliano Queiroz,
que adaptou a novela e contou com a ajuda da escritora
Janete Clair para mudar os decadentes rumos da história.
Destinos inusitados
Matar um personagem nem sempre é uma tarefa fácil. E,
em algumas circunstâncias, o apelo do público pode ser
fundamental para alterar os rumos da história. Manoel Carlos
lembra que teve essa experiência na novela "Baila Comigo",
exibida pela Globo em 1981. Tudo porque a sinopse previa a
morte do médico Plínio Miranda, interpretado por Fernando
Torres, por volta do primeiro mês de exibição. Mas, depois
que o fato foi divulgado, o autor não conseguiu matar o
personagem em função das inúmeras reclamações feitas por
telespectadores na Globo. "As pessoas diziam que se
sentiriam órfãs caso ele morresse. Assim, o Plínio permanceu
até o fim e foi um dos personagens de maior sucesso. A
opinião do público é fundamental, pois a novela só tem
sentido se for vista", argumenta Maneco.
Em casos mais raros, a morte de um personagem também
pode ocorrer em função de um pedido do próprio ator. Foi o
que aconteceu com Emiliano Queiroz na época em que fazia a
novela "O Homem Proibido", escrita por Glória Magadan
em 1982. Cansado do trabalho na tevê e decidido a passar um
tempo viajando pelo país com a peça "Navalha na Carne",
ele pediu para a autora matá-lo no meio da trama. "Atuava
sem parar na tevê nos primeiros 10 anos. Até que fiquei
muito empolgado com o teatro e minha única saída para
aproveitar mais a fase foi pedir para morrer",
relembra.
Instantâneas
# Segundo Silvio de Abreu, todos os assassinatos de "Passione"
estão interligados. "A novela não tem 'serial killer'
e as mortes envolvem todos os personagens", garante.
# Em "Cama de Gato", a morte de Alcino, de Carmo
Dalla Vecchia, estava prevista desde o início da novela. O
sucesso do personagem, no entanto, fez com que ele morresse
apenas no último capítulo.
# Ricardo Linhares defende que, em uma novela com
assassinatos, é importante planejar com antecedência tudo o
que diz respeito aos crimes. "Só assim dá para montar
as pistas verdadeiras e falsas. Nesse caso, não importa que
seja uma obra aberta", argumenta.
# Em "Caras & Bocas", o empresário Jacques,
personagem de Ary Fontoura, foi supostamente assassinado no
início da história para que o ator, que havia emendado duas
novelas, pudesse descansar. Após um período de férias, ele "ressuscitou"
na trama por volta do capítulo 80.
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