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Principal
Principal: entrevista com Carmo Dalla Vecchia, o
Silvério de "A Cura", da Globo – Fotos:
Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z Notícias –
Data: 28/09/2010 A
menção dos créditos é obrigatória
O voo do gafanhoto
Depois de viver o seco e carrancudo Silvério de "A Cura",
Carmo Dalla Vecchia volta ser mocinho na próxima novela
das 18 horas
por Márcio Maio -
TV Press
Carmo Dalla Vecchia coleciona papéis de conquistador. Mas
foi justamente na pele do maltratado Silvério da série "A
Cura" que o ator parece ter vivido seu grande êxtase na
tevê. Tanto que ele não economiza palavras ao descrever o
quanto se surpreendeu com a imersão que realizou no universo
do minerador mal-encarado. A ponto de sofrer fisicamente ao
se aproximar a data de se ver no ar. "Na véspera da
estreia, molhei oito camisas tentando dormir, mas não
conseguia. Cheguei a medir a temperatura, mas estava em 37º.
Era tudo psicológico", conta o ator, que emagreceu
15 quilos para as gravações. A experiência mexeu com Carmo,
mas esse "frisson" já tem data certa para
acabar. Depois que o último episódio de "A Cura" for
ao ar, em 12 de outubro, o gaúcho sai de férias. Na volta,
já começa a se dedicar a um novo trabalho: protagonizar, ao
lado de Paola Oliveira, o próximo folhetim das 18 horas da
Globo, com assinatura de Duca Rachid e Thelma Guedes. "Fico
feliz que elas tenham gostado do meu trabalho em 'Cama
de Gato' a ponto de confiar esse posto a mim. Gosto de
estabelecer parcerias com as equipes que funcionam. E foi o
caso ali", analisa o ator, que interpretou o
aventureiro Alcino na primeira experiência das autoras em
uma trama original.
P – Você se despiu da vaidade para interpretar o Silvério
de "A Cura". O que isso trouxe para sua composição?
R - Uma liberdade incrível, a possibilidade de fazer um
personagem sem aquela preocupação de fazer as pessoas
quererem levar você para a cama. E, com isso, se concentrar
exatamente na história que deve ser contada e no tipo que
você tem de construir. A televisão lida com a imagem e você
tem de ter um apego a esse detalhe, porque as pessoas gostam
daquilo que estão vendo. Com o Silvério, não, ele conta o
lado mais repugnante da história. As pessoas não me
reconheciam nas ruas. Aconteceu até de eu sair em São Paulo
e ouvir “ih, olha aquele ator da Globo!” e um
outro falar, ao lado, “que nada, é só um mendigo”.
P – Esse foi o ponto alto da minissérie para você?
R – Confesso que não ter de aparecer atraente foi bem
motivador. Tem um lixo que dá para colocar para fora e é
gostoso exercitar isso. Todas as cenas do Silvério tinham
essa questão simbólica do passado. Elas foram guiadas por
ações fortes, representativas do mal e daquela época. Tanto
que o Silvério não é um vilão de época, porque era assim que
acontecia. Foi um grande prazer exercitar esse desapego.
P – Quando tinha sido seu último trabalho de época?
R – Só fiz época em “Engraçadinha - Seus Amores e
Seus Pecados”, que era na década de 50, 60. Nunca
trabalhei em tramas passadas em séculos diferentes.
P – Mas você fez um “Linha Direta Justiça” especial sobre
um casal de açougueiros que, supostamente, seria canibal e
morava no Sul do país, em 1863...
R – Nossa, é verdade! Tá, ali foi uma experimentação do
que, depois, seria o Silvério. Era uma coisa engraçada
porque aquele açougueiro comia as pessoas, literalmente. Mas
o Silvério é muito mais elaborado. No “Linha Direta”
era quase uma lenda, a história nunca foi comprovada. Tanto
que até hoje brincam muito lá com as crianças, dizem “olha
que eu vou chamar o açougueiro para te pegar”.
P – Que referências você buscou para construir o Silvério?
R - Tem um livro do Sérgio Buarque de Holanda chamado “Caminhos
e Fronteiras” que li e foi muito importante nesse
trabalho. Ele fala sobre o emparedamento, as unhas grandes,
o sacrifício, a aparência depauperada, o descuido, até a
doença que ele tinha e que matava muito fácil na época. E
olha só que curioso: há pouco tempo, uma médica me deu o
nome da doença do Silvério, aquela que onde alguém toca,
vira uma ferida. Chama-se epidermólise bolhosa.
P – Você falou do aspecto descuidado, do quanto foi bom
se despir de qualquer vaidade, mas assim que as gravações
acabaram, voltou para a cara de galã de antes. Por quê?
R – Adorei passar pela experiência, mas não acho que
meus últimos papéis tenham sido de galãs. Aliás, eles até
tinham um apelo de conquistador, de uma boa aparência, mas
sempre com um “pé quebrado”. Em “Engraçadinha”,
era um filho apaixonado pela mãe; em “Cobras & Lagartos”,
era um desmemoriado; em “A Favorita”, o Zé Bob era
meio justiceiro, repórter de jeans e camiseta, o charme dele
era o lado largado. E, em “Cama de Gato”, o cara
descobria, no primeiro capítulo, que ia morrer. Mas eu não
tenho essa vaidade de roupa, de maquiagem. Nunca vão me ver
brigando por uma peça de indumentária nova. Minha função não
é essa. Eu me entrego demais aos personagens. Às vezes, até
sofro por isso.
P – Como?
R – Por exemplo, a questão de emagrecer tanto para fazer
“A Cura” e trabalhar sentimentos tão fortes quanto a
cobiça, a inveja e o ódio que tem daquele menino, o Ezequiel
(vivido pelo ator Dyjhan Henrique), que é capaz de curar
qualquer um, menos o Silvério. Comecei a sonhar que eu
estava assassinando pessoas. E eu, no próprio sonho,
questionava o que estava acontecendo e por que fazia aquilo.
Saía das gravações com dores nas costas. A postura do
Silvério era completamente diferente. Sempre o imaginei meio
que em forma de gafanhoto, por isso emagreci 15 quilos.
P – Hoje, depois de terminar as gravações e ver quase
todos os episódios no ar, que balanço você faz de “A Cura”?
R - É uma série muito ousada por se propor – e isso eu
acho genial e inusitado – a ser um seriado semanal com uma
história que não se encerra em cada capítulo. Para entender
o texto, é preciso acompanhar os nove episódios. Não é como
“Os Normais” ou “A Grande Família”. Acho isso
demais porque as pessoas estão começando a se ligar agora
nesse mercado aqui no Brasil.
P – Você chegou a se inspirar em algum seriado importado?
R – Sim. “Twin Peaks” me ajudou muito. Outro
seriado que me inspirou foi “O Vidente”. Não pela
história, mas pela linguagem. E também “A Paranormal”,
com a Patricia Arquette. “A Cura” já é um dos
trabalhos inesquecíveis da minha carreira.
P – O formato de seriado parece ter encantado você, mas
sua participação já é dada como certa na próxima novela das
seis. Esse convite já foi formalizado?
R - A Thelma e a Duca me chamaram, sim. A nova novela
delas, que substituirá “Araguaia”, deve começar a ser
gravada em dezembro ou janeiro. Os primeiros trabalhos serão
feitos na Espanha, mas a história vai ser de época e se
passar no Piauí. Trata-se de uma espécie de fábula, sem
caráter histórico. Não existiu uma corte espanhola que veio
para o Piauí. O que eu sei mesmo é que vou interpretar o rei.
Coincidentemente, o primeiro personagem que fiz no teatro,
numa peça da escola, aos 6 anos. Lembro que eu beijava a
rainha.
P – Depois de assinar contrato longo com a Globo, esse
vai ser seu primeiro papel sem o “dedo” do João Emanuel
Carneiro, com quem você tem trabalhado direto nos últimos
cinco anos. Como você recebeu esse convite?
R - O Alcino, meu personagem em “Cama de Gato”,
deu muito certo. Algumas pessoas torceram pelo romance dele
com a Rose, mocinha feita pela Camila Pitanga. A doença
comoveu o público. Fico feliz que as autoras tenham gostado
do meu trabalho a ponto de depositar, mais uma vez, essa
confiança em mim. Claro que é gratificante ver que reparam
em você.
P – Você sentia falta de convites de outros autores?
R - Nem deu tempo. Emendei uma novela na outra. Não tive
folga para ver se alguém ia me requisitar. O máximo que
fiquei sem gravar entre uma produção e outra foi mais ou
menos oito meses. E acho que as parcerias funcionam porque
dão certo. Se eu não tivesse correspondido às expectativas,
isso não se repetiria.
"A Cura" – Globo – Terças, às 23:10 h.
Vida cigana
Carmo iniciou seu trabalho na tevê como modelo. Na época,
sonhava em brilhar no mercado internacional, mas os convites
cada vez mais o direcionavam para a carreira de ator, já que
sempre recebia textos para decorar. Não demorou para que
ingressasse na Oficina de Atores da Globo. Foi o suficiente
para conquistar seu primeiro papel na tevê, na minissérie "Engraçadinha
- Seus Amores e Seus Pecados". Tudo porque foi chamado
para ajudar no teste da atriz que faria o papel principal. "Acho
que curtiram meu trabalho, porque me chamaram para fazer o
filho dela na segunda fase", recorda o ator, que
encarnou o ciumento Durval.
A estreia promissora, emendada com um papel de destaque em "Cara
& Coroa", em 1995, logo deu espaço a uma trajetória
inquieta na tevê. Sem perspectivas na Globo, Carmo passou a
viver uma rotina de nômade pelas emissoras. Gravou "Perdidos
de Amor", na Band, em 1996, e migrou, em seguida, para a
Record, onde participou da minissérie "Canoa de Bagre".
Em 1998, retornou à Band para interpretar o boa pinta
Silvaninho em "Serras Azuis". De lá, fechou com o SBT
e integrou o elenco da novelinha infantil "Chiquititas
Brasil". A receptividade na emissora de Sílvio Santos
foi suficiente para que o ator emendasse esse trabalho com
um novo personagem, desta vez em "A Pícara Sonhadora".
Só em 2003, Carmo retornou para a Globo com um papel fixo,
na minissérie "A Casa das Sete Mulheres". "Ali,
a minha situação começou a melhorar bastante",
lembra.
Chegou até a fazer um teste para interpretar um vilão em "Da
Cor do Pecado", de João Emanuel Carneiro, na Globo, mas
perdeu o papel para o então estreante Guilherme Weber. Com
isso, um convite tentador levou o rapaz de volta ao SBT,
integrando o elenco de "Seus Olhos", em 2004. Mas,
pouco tempo depois, no mesmo ano, já estava gravando "Começar
de Novo", na Globo, emissora da qual não saiu mais.
Entre participações em programas como "Linha Direta"
e outros da linha de shows, Carmo começou a decolar para
valer ao ser escalado para encarnar o misterioso Luciano em
"Cobras & Lagartos". Se deu bem, assinou contrato com
a emissora e, desde então, já protagonizou "A Favorita"
e "Cama de Gato". Mas ainda se sente inseguro em
relação ao mercado. "Durante muito tempo, ainda vou
depender do meu último trabalho para ser chamado para outros
papéis de peso. É um caminho natural na vida dos atores",
analisa.
Senhor do destino
Carmo garante que ter um contrato longo não é mais uma
prioridade em sua vida. O ator vem produzindo espetáculos
que conseguem se manter em cartaz, com plateia cheia, há
alguns anos. Mas não recusou, em 2009, a oferta de se tornar
exclusivo da Globo até 2013. "Acho que ser contratado
é uma questão de mercado. A empresa não é obrigada a manter
qualquer ator. Mas existem pessoas que ela sabe que vai
poder aproveitar e que, se deixar livre, outras emissoras
podem pegar", opina. Mesmo assim, dá a entender que,
por ser difícil conciliar suas investidas no teatro com as
aparições constantes em novelas, não será uma surpresa se
optar trabalhar por obra no futuro. "Por enquanto, só
recebi convites que não davam para recusar. Mas gosto de
poder me dedicar aos palcos. E nos projetos que eu mesmo
produzo. Às vezes, é bacana embarcar e defender a sua ideia,
sem ficar sempre se adaptando à vontade dos outros",
afirma.

Trajetória televisiva

# "Engraçadinha - Seus Amores e Seus Pecados" (Globo,
1995) - Durval.
# "Cara e Coroa" (Globo, 1995) - Fabinho.
# "Perdidos de Amor" (Band, 1996) - Dalton.
# "Canoa do Bagre" (Record, 1997) - João.
# "Serras Azuis" (Band, 1998) - Silvaninho.
# "Chiquititas Brasil" (SBT, 2000) - Rian.
# "Pícara Sonhadora" (SBT, 2001) - Inácio.
# "A Casa das Sete Mulheres" (Globo, 2003) - Batista.
# "Seus Olhos" (SBT, 2004) - Sérgio.
# "Começar de Novo" (Globo, 2004) - Tenório.
# "JK" (Globo, 2006) - Carlos Vasconcelos.
# "Cobras & Lagartos" (Globo, 2006) - Luciano.
# "A Favorita" (Globo, 2008) - Zé Bob.
# "Cama de Gato" (Globo, 2009) - Alcino.
# "A Cura" (Globo, 2010) - Silvério.
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